Sinopse
Algures na serra, num planalto remoto e quase desértico, num
lugar onde não passa ninguém, três audaciosos cowboys, mais um
rapaz tocador de pianola e uma sedutora e exuberante, cantora
coxa, amiga do pianista, empreenderam um negócio rendável: um
saloon. Deram-lhe um nome: Saloon Yé-Yé. Atrás do balcão do bar
um letreiro: “Proibido não fumar”. Nunca ninguém entrou no
Saloon Yé-Yé. A fama dos três audaciosos não é a melhor: Kid
Mocas é míope e jogador de cartas muito ganancioso, batoteiro
profissional e caçador de tudo o que vem à mira, “tudo o que vem
à mira é caça”. Bruto Bush é traficante de armas e petróleo (tem
um ódio de morte a todos os que traficam droga e criancinhas).
Speedy Meu (assim chamado por estar sempre a querer que os
outros andem rápido, mas ele é mais lento que um caracol) é
mexicano, trata da cozinha e do bar, e tem negócio de bares de
alterne (é ele que controla a vida de Susy Carioca, a cantora
coxa e descarada, discutindo sempre muito com Teclas Man, o
pianista, que é cego e protegido de Susy. O Saloon vive dias
animados com a música do cego pianista mais a cantoria de Susy,
mas os clientes são apenas Kid Mocas e Bruto Bush, que bebem e
experimentam truques de cartas. A porta do saloon abre-se e tudo
pára. Será o primeiro cliente? Não. É Speedy Meu que vem da
horta, com nabos para a sopa. É repreendido por não ter entrado
como devia. Discussão, música e cantoria. Speedy Meu, amuado,
vai atirar setinhas contra um alvo. Uma delas acerta no
pianista. O cego atira-se a ele, mas agarra-se a Bruto Bush, que
o empurra para Speddy Meu. De novo a confusão e de novo serenam
os ânimos. O mal de tudo aquilo é não terem o negócio a correr
como devia ser, constatam. “Isto um dia acaba como começou... de
repente”, profetiza Teclas Man. Pedem a Susy que cante umas
coisas mais atrevidas. Kid Mocas sugere experimentarem as
pistolas não só para passarem o tempo como para desenferrujarem
as ditas. Speedy Meu propõe que ponham uma maçã em cima da
cabeça de Teclas Man. Não é a primeira vez que Teclas Man se vê
no papel do filho de Guilherme Tell com a maçã em cima da cabeça
e, resignado, deixa que coloquem a maçã. Mas quando o primeiro
atirador se prepara para disparar, a porta do saloon abre-se.
São dois forasteiros vindos de nenhures. Um deles troca olhares
comprometedores com Susy e o outro parece conhecer Bruto Bush.
Instala-se o incómodo. Querem beber e divertir-se. Teclas Man
volta a sentar-se e toca a pianola. Susy canta, mas a música e a
cançoneta são interrompidas com um tiro de um dos forasteiros.
Bruto Bush é confrontado com uma dívida a um dos forasteiros.
Vêm cobrá-la. Negócios. Mas este forasteiro é agora traficante
de droga e Bruto Bush não está na disposição de saldar a sua
dívida. “Dorga? Estás metido na dorga?” pergunta Speedy Meu.
“Não é dorga, é droga”, corrige Teclas Man, “Ouvi bem, não
ouvi?” “Ouviste”, diz o forasteiro. A questão para os
forasteiros é simples: vêm tomar posse do Saloon. E se não o
tomam a bem, tomam-no a mal. “Mas pretendem fazer um saloon
alternativo, é?” pergunta o Teclas Man. “De alterne, sim.”,
respondem. E com a nova gerência a música e a animação não
param. Sucedem-se números e personagens. Mas depois aborrecem-se
com tanto divertimento. Agora que todos são amigos, por que não
pensarem numa aventura mais séria e que os tire definitivamente
do anonimato do deserto, ali no planalto da serra? Pensam num
Saloon ambulante. Mas para isso precisariam de números de circo.
Propõem o pianista para andar no arame. Fazem números de circo
com a pianola a acompanhar. Mas desistem de fazer o saloon
ambulante. Revela-se a antiga relação de um dos forasteiros com
Susy Carioca. Era o seu chulo e quer fugir com ela porque não
era como muitos, era um chulo especial, amava-a realmente. Ela
ainda ama o seu chulo, mas fica a balançar entre ele e Speedy
Meu. “Então e eu?”, dirá o pianista. E uma noite o forasteiro
foge com Susy Carioca. Vendo o outro forasteiro sozinho, Bruto
Bush, junto com Kid Mocas (mas sem a ajuda deste, que só
assiste) dá-lhe cabo da saúde, estimulando-o a beber copos e
copos de whisky e ele bebe, bebe sem parar uns atrás dos outros,
dezenas de copinhos, e tomba, acaba por tombar e levam-no para o
meter depois na pia dos porcos, “Que o misericordioso tenha
misericórdia de nós!” Vendo-se sem Susy Carioca, Speedy Meu -
que finalmente se percebe que tem, também ele, uma paixão
secreta por Susy - já não quer viver, e prepara-se para morrer
nos braços do pianista, emborcando uma caixa de comprimidos para
dormir (muitos coloridos “smarties”) com whisky. Mas Susy
Carioca arrependeu-se e volta para o saloon, mas quando chega já
Speedy Meu está nos anjinhos. Então, alucinada, canta uma última
canção, de despedida, e desaparece na noite, enlouquecida. O
pianista tenta ir atrás dela mas não encontra a saída do saloon.
“Mas onde é a porra da porta?” e está ele nisto quando entra Kid
Mocas que traz Susy Carioca nos braços, também já nos anjinhos,
e , silenciosamente, despeja-a junto de Speedy Meu. Teclas Man
não se dá conta da presença de Susy Carioca e acaba por sair,
chamando por ela e jurando que vai arranjar um cão piloto. Bruto
Bush entra. “Onde está o pianista?”, pergunta. “Foi fazer uma
mija”, diz Kid Mocas. “O show tem de continuar.”, diz Bruto
Bush. Comentam e elogiam os amores de Speedy Meu e Susy Carioca.
Talvez que o Teclas Man tenha desistido, quem sabe? “O melhor é
arrumarmos isto aí atrás do balcão. Aqui à vista até parece
mal”, diz Bruto Bush. E arrastam Speedy Meu e Susy Carioca,
fazendo-os desaparecer. E agora está na hora do duelo. Tudo foi
uma tramóia de Kid Mocas para se apoderar do saloon. Foi ele
quem contratou os forasteiros. Aponta uma pistola a Bruto Bush.
Os dois afastam-se de modo a enfrentarem-se para um duelo.
Quando estão prontos para sacar as pistolas, entra um comando da
AZAE (com Z de Zorro para evitar a ASAE), com fatos de operações
especiais, gorro passa-montanhas e imobilizam os dois cowboys.
Um dos agentes com estrela de xerife e com o livrinho das coimas
interroga sobre as condições da salubridade do estabelecimento,
a limpeza dos copos, as luvas que não existem, há pó sobre o
balcão e etc. Não tem casa de banho e só isso basta para mandar
fechar e selar o saloon. O saloon é selado e todos saem. Entra
Teclas Man, perdido, ainda atrás de Susy. Senta-se à pianola e
toca uma melancólica melodia. “Susy, Susy, a vida é para andar /
Onde está o pássaro para eu poder cantar?”
Ficha Artística
Texto: Abel Neves
Encenação: Graeme Pulleyn
Direcção Musical: Carlos Clara Gomes
Cenografia e Figurinos: Ana Brum
Design gráfico: Zé Tavares
Interpretação:Teatro do Montemuro e Peripécia Teatro
Estreia: 31 de Outubro de 2009 |